Hoje eu fiquei pensando mais uma vez sobre como é possível duas pessoas que são biologicamente programadas para o amor mútuo não o porem em prática. Ele me olhou e disse - com o tom de superioridade de sempre como se ele fosse um sábio e eu sua discípula - VOCÊ NÃO ESTÁ MORTA, mas sem saber que para mim é ele que parece morto - há muito.
Não sei explicar quando isso tudo começou, provavelmente eu era nova demais pra entender, mas não o suficiente para não perceber o que se passava, talvez por isso eu tenha me esforçado tanto para agradar-lhe. Eu gostava do que ele gostasse, fazia o que ele me mandasse, acompanhava-lhe nos programas que as outras não queriam: eu queria que ele soubesse que, de todas, eu era a que sempre estaria ali.
Talvez ele nunca tenha me amado. Talvez tenha deixado de amar quando percebeu que eu tinha mais dele do que ele esperava. Não era só o cabelo, nem o nariz, nem a retórica eloquente que temos em comum, acho que era tudo. Sempre foi tudo.
Então a distância entre nós foi crescendo, era como se gostássemos de discordar só para podermos discutir e termos enfim um motivo para não nos falarmos, até que precisássemos um do outro, e o tempo entre esse dois eventos era um alívio. Eu por me cansar de tentar agradar, ele não sei por qual motivo.
Posso pôr nele a culpa por eu ser assim? Se foi com ele que cresci e aprendi e vivi o que eu sou hoje? Talvez. Também não sei.
Mas eis que aquela noite veio para fincar entre nós uma muralha que jamais seria derrubada. Nunca havíamos chegado a tal ponto... Aquela maldita noite que eu desde então prometi nunca escrever a respeito para não ter o desprazer de reler e amargar as mesmas sensações novamente.
Nunca mais consegui tê-lo de volta. Eu que antes jurava que abriria mão do que fosse necessário para acompanhar-lhe se ele um dia ficasse sozinho. Eu tinha mais medo que ele ficasse sozinho do que de ficar só, hoje não vejo a hora de deixá-lo. De deixá-los (quase) todos. Sei que vou chorar e sofrer e sentir mais do que qualquer um deles, e principalmente, muito mais que ele quando essa hora chegar, mas ainda assim não vejo a hora. Talvez nos faça bem, e redescubramos então o amor que se perdeu no tempo. Será que é possível que uma pessoa tão seca e machucada volte a ser a menina que acordava cedo aos domingos pra assistir àquelas corridas tão chatas contigo enquanto você tomava "cabeça-de-galo"? A menina que aprendeu a falar como você e a torcer pelo mesmo time que você e tantas outras coisas que nos fazem iguais e que deve ser EXATAMENTE por isso que nos separam? Acho que não estamos prontos pra conviver com nosso próprio espelho. Sim, por que as vezes me parece que eu sou o seu e você o meu, apesar das manchas. Quando você me abraçou eu chorei tanto por que minha vontade era gritar que te odiava e te mandar me soltar e não falar contigo nunca mais, mas não o fiz. Você disse que eu posso ir embora quando quiser, e eu irei assim que puder. Mas isso vai fazer alguma diferença? Vai mudar alguma coisa entre nós? Vai nos aproximar por provocar saudade ou separar-nos mais ainda quando nos acomodarmos com essa situação? Você algum dia me amou?
Gratidão
Há 12 anos
